“Tem o rosto tão bonito, só precisava emagrecer pra ficar linda”. “Mas você vai comer tudo isso mesmo? Olha a balança, hein?”. “Nossa, fiz uma gordice hoje, comi um pedaço enorme de bolo de chocolate”. “Eu só falo para você emagrecer porque me preocupo com a sua saúde. É pro seu bem”.
Quem nunca disse ou ouviu alguma ou todas essas frases em determinado momento da vida que atire a primeira pedra. A indústria da dieta, a cultura das academias, as musas fitness, a medicina e a sociedade em geral fazem um controle ferrenho em cima do corpo das mulheres. Os homens também podem sofrer desse mal chamado pressão estética. Mas as mulheres geralmente são suas maiores vítimas. Ter um corpo fora do que é, no momento, considerado o padrão estético é causa de enorme sofrimento emocional e movimenta uma indústria gigantesca, que vai desde as dietas, shakes e produtos para emagrecer, até marketing de estilo de vida, programas televisivos que vendem “bem estar”, até canais no youtube que supostamente representam a vida de uma pessoa saudável e focada na boa forma, além de profissionais de ajuda, como coaches.
Já deu pra perceber que nessa sociedade obcecada com a tal da boa forma física não é nada fácil ser gorda. A própria palavra já soa como um palavrão, pedindo muitas vezes um eufemismo pra ficar mais fácil de encarar, como gordinha, fofinha etc. Nada mais ofensivo, ou melhor, pecaminoso, nos dias atuais do que ser gorda. Ser gorda assumida e empoderada então, heresia.
E não é à toa que estou falando de pecado. Afinal, a gula (entendida pelo senso comum como a grande causadora da obesidade), é um dos sete pecados capitais pregados pela Igreja Católica. Mas já na Grécia clássica, havia um culto pelo corpo esbelto e musculoso como ideal de uma mente equilibrada. A expressão “mente sã, corpo são” vem daí. O corpo esbelto seria uma expressão de uma mente controlada, do homem superior. Homem, porque as mulheres nem eram consideradas cidadãs naquela sociedade.
Bem, se com a ascensão do cristianismo o corpo é visto como pecaminoso em si e a gula reconhecida como um vício do caráter, um corpo gordo, grande, exuberante, é algo escandaloso, que precisa ser contido e expiado. Daí a receita de jejuns, mutilações e suplícios. O corpo gordo exala sexualidade, especialmente o feminino. Todas as formas femininas estão como sob uma lente de aumento, impossibilitando passarem despercebidas. Seios, quadris, coxas e até vulva estão ali, mostrando sua existência e a possibilidade de uma sexualidade latente. Não é à toa que as grandes deusas femininas da antiguidade eram representadas com essas mesmas características em evidência. Inana, Baubo, Afrodite. Todas curvilíneas e exuberantes. Todas pecaminosas.

Vivemos em uma sociedade puritana, apesar de vender e consumir sexo em demasia. O corpo das mulheres sempre foi controlado. Esse corpo que dá a luz e a vida, esse corpo que nutre, esse corpo que sangra todos os meses, esse corpo do qual todos viemos, inclusive os homens. Esse corpo tem poder. E numa sociedade opressora e machista, esse poder precisa ser escondido, reprimido, renegado. Passar a vida controlando seu próprio corpo, temendo-o, envergonhando-se dele, desvia de foco a energia criativa feminina e a reprime. Essa é mais uma das formas de opressão que as mulheres sofrem no patriarcado. Essa energia natural feminina presente no corpo é realocada no esforço contínuo de moldar esse corpo, purificá-lo. E não fica disponível para a mulher usá-la com criatividade em outras áreas de sua vida, inclusive a sexualidade. Com tanta repressão, não é à toa que tantas mulheres se queixem de falta de libido e anorgasmia.
Ser gorda, nessa sociedade e diante de todos esses fatos, torna-se uma forma de enfrentamento. Porque a mulher gorda precisa escolher entre tentar de todas as formas se adequar, o que traz sofrimento mental e físico; ou aceitar suas formas como parte de quem é, o que traz preconceito e desentendimentos em vários âmbitos da vida.
Não há nada mais prejudicial ao patriarcado do que uma mulher segura de si. E a sociedade em geral força uma adaptação de todos à mesma neurose. Não é possível uma mulher viver sem se submeter à pressão estética que nos oprime a todos. Essa liberdade incomoda, porque leva a questionamentos internos a respeito da prisão em que vivem os outros. E os indivíduos muitas vezes preferem viver no cantinho seguro e quentinho da ignorância. Questionar pode ser perigoso. E sofrido.
Nesse cenário de forças inconscientes que atuam na psique individual e coletiva, temos desde a relação de cada um com a comida e com seu próprio corpo, assim como as já descritas ideias de pecado e repressão. Tudo isso funciona como barril de pólvora para o preconceito.