
Faz quatro anos que eu pratico Muay Thai e os mesmos quatro que eu vejo a cara de surpresa da maioria das pessoas quando comento que luto ou respondo à pergunta “Você pratica alguma atividade física?”. Por vezes, a cara de espanto vem acompanhada de perguntas curiosas como “Mas você não tem medo de se machucar?” ou “Isso não é coisa de homem?!”. Quando não comentários do tipo “Você é mulher…não deveria praticar uma atividade tão violenta!” ou “Por quê você não substitui a luta por alguma coisa mais feminina, menos bruta e violenta, e que perca peso como esta, tipo Spinning ou qualquer outra aula de academia?”.
No início, este tipo de pergunta/comentário me gerava tanto incômodo que eu não conseguia responder sem ser grosseira. Primeiro porque a distinção entre esportes “para homens” e “para mulheres” nunca fez muito sentido para mim. Desde criança sempre gostei dos que eram tidos como “masculinos”, como handball e futebol, e meus pais e professores de educação física nunca questionaram. Segundo porque existe na sociedade um pensamento vigente de que a prática de atividade física e, principalmente, a feminina, deve estar voltada para a perda de peso ou para se atingir um determinado padrão de beleza física. Confesso que, por muitos anos, me deixei levar por essas pressões e tentei me adequar a estes padrões. Fiz muita esteira e musculação para conseguir controlar o meu peso. Chegou um dia que eu cansei de fazer estas atividades somente por este objetivo. Tendo tido a chance de conhecer uma academia de luta, descobri no Muay Thai uma maneira de extravasar minhas energias praticando um esporte que me dá prazer e que, ao contrário do que se pensa, não é uma atividade, necessariamente, violenta.
Resolvi escrever sobre a minha experiência com a luta para contribuir no conhecimento sobre ela e, quem sabe, quebrar certos preconceitos. Então, vamos lá! Começando pelo significado da palavra, Muay Thai quer dizer “arte livre”. É uma arte tailandesa, de 2000 anos, e também é conhecida como “boxe inglês” no Brasil. Existem várias versões sobre as origens do Muay Thai. A mais aceita, pela Confederação Brasileira de Muay Thai e pelos mestres desta arte, é a de que, ao longo da sua história, os tailandeses foram hostilizados e sofreram muitos ataques então eles resolveram criar um método de luta e de autodefesa chamado “Chuapasart”. Como neste método as pessoas usavam armas, acabavam se machucando nos treinamentos. Para que os tailandeses (homens)¹pudessem treinar em tempos de paz e sem se ferir, eles desenvolveram um método de luta sem armas, percursor do Muay Thai.

No início, a arte era muito parecida com o Kung Fu chinês. Com o tempo, ela foi se transformando, regras foram sendo estabelecidas, assim como equipamentos para o treino e para a luta, até chegar no que conhecemos hoje². Se na Tailândia ela é uma tradição milenar, no Brasil tem pouco mais de três décadas de existência. Embora tenha chegado só em 1979, com um grupo faixa preta de TaeKwonDo, hoje já conta com uma Confederação, com diversos campeonatos nacionais e internacionais, graduações³, além de estar presente em várias academias. Só para se ter uma noção do “sucesso” da arte, nós estamos entre os cinco países que mais praticam Muay Thai no mundo⁴.
A arte já estava sendo procurada por mulheres brasileiras quando eu comecei, mas sinto que a frequência feminina vem aumentando, pelos mais diversos motivos. No meu caso, em 2014, eu estava muito estressada e cansada, no segundo ano do mestrado, finalizando a escrita da dissertação e sem ter com o que espairecer. Para a minha sorte, abriu uma academia de lutas perto da minha casa e foi assim que eu resolvi fazer uma aula-teste e me apaixonei ao ponto de não me imaginar mais sem treinar.
A minha aula tem a duração mínima de 1 e máxima de 2 horas e conta, mais ou menos, com 10-15 pessoas, sendo metade mulheres. As aulas variam muito, de academia para academia, de mestre para mestre, e etc. Na academia que frequento, algumas aulas são treinamentos individuais, outras em dupla (em geral, os mais graduados juntos, mas estes também treinam com os iniciantes); algumas são nos sacos de boxe, outras são na manopla/aparadores, no Bob (primeira imagem) e ainda tem as que são “corpo a corpo” (contato direto no material do treino). Tem aquelas que são mais técnicas (que não cansam tanto) e as que são mais de resistência ou aeróbicas (e cansam horrores!). Em geral, usa-se muito os braços e as pernas, para socos e chutes. Com o tempo (e as graduações), joelho e cotovelo são adicionados. Ou seja, é um esporte que trabalha o corpo todo, o tempo todo. O mais legal de tudo é que cada aula é muito diferente da anterior, então não dá para enjoar.
O “temido” sparring (luta) acontece ocasionalmente, é opcional e, em geral, MUITO TRANQUILO, principalmente se você conversa com a sua dupla e explica que não está na aula para fins profissionais. No começo, eu tinha muito medo, mas, com o tempo e a experiência, fui vendo que não é nenhum “bicho de sete cabeças”. Também nunca me machuquei no treino/sparring.
Nos últimos anos, o Muay Thai para mulheres foi muito mencionado pelos seus benefícios físicos. Eu acho que, mais que pelo físico, é principalmente pelo psicológico que vale a pena tentar um dia. Qualquer pessoa que treina nota a diferença entre como entra e sai da aula. A sensação principal (depois do cansaço) é de extrema leveza, porque todo o estresse, a tensão, a raiva e as preocupações do seu dia ficaram por ali. Por incrível que pareça, a prática contínua também contribui para aumentar a disciplina, a concentração, a disposição e o rendimento.
Além do que mencionei, a luta também é boa para a defesa pessoal. Conhecida como “a arte das oito armas” – já que combina técnicas e força que incluem punhos, cotovelos, joelhos, canela e pés-, a luta também pode trazer mais confiança e segurança para nós mulheres. Que tal fazer uma aula-teste e tirar suas conclusões?
¹Na Tailândia, as mulheres já lutavam antes, mas só foram legalmente autorizadas em 1995.
²Informações retiradas do site da Confederação Brasileira de Muay Thai: http://www.cbmuaythai.com.br.
³A título de curiosidade, a graduação do Muay Thai brasileiro tem as seguintes kruang (do menos para o mais avançado): branca, branca com ponta vermelha, vermelha, vermelha com ponta azul clara, azul clara, azul clara ponta azul escura, azul escura (instrutor), azul escura ponta preta (instrutor máster), preta (professor), preta e branca (mestre) e preta, branca e vermelha (grão-mestre).
⁴De acordo com a Confederação Brasileira de Muay Thai.