O hábito de não questionarmos nossos direitos

em Acontece/Comportamento/Saúde por

Cerca de um ano atrás meu cunhado sofreu uma queda durante uma partida esportiva, o que ocasionou uma fratura do rádio esquerdo, um dos ossos do braço. Ele procurou atendimento em um grande hospital particular que pertence a rede credenciada do seu convênio, em Niterói, no Rio de Janeiro.  Foi iniciado o atendimento no Pronto Socorro, com avaliação de um médico ortopedista que solicitou um Raio-X, confirmando a fratura e a necessidade de uma intervenção cirúrgica para tratamento da mesma.

Meu cunhado e minha irmã realizaram a internação e preparo para a cirurgia que seria realizada no dia seguinte. Todo o processo burocrático transcorreu tranquilamente. Até o momento de ser encaminhado para o centro cirurgico, apenas enfermeiros haviam conversado com eles. A equipe de enfermagem então encaminhou meu cunhado ao centro cirúrgico, cerca de alguns minutos depois, solicitaram a presença daminha irmã na sala do pré-operatório, ela estava ansiosa pois não sabia qual era o motivo de estar naquele local.

Eis que um médico a abordou e se apresentou como o anestesista que acompanhava  as cirurgias do  ortopedista que iria operar meu cunhado, e que ele não fazia parte da rede credenciada de médicos do hospital, por tanto seus serviços  eram particulares e deveriam ser pagos ao término da cirurgia , induzindo ela a acreditar que essa era a única opção de anestesista para a cirurgia que estava prestes a começar e  por tanto ela deveria aceitar e contratar os serviços particulares dele.

Como qualquer pessoa que tem contas para pagar e precisa de uma programação mínima, ela questionou sobre os valores, o anestesista por sua vez disse a ela que não tinha como definir ao certo, pois dependia do transcorrer da cirurgia, mas que ela precisava tomar uma decisão rapidamente, pois esse era o único empecilho para o início da cirurgia. Minha irmã então aceitou tal condição e “contratou” o médico anestesista.

Ao termino da Cirurgia finalmente o cirurgião se apresentou a minha irmã, informou como transcorreu o procedimento e qual era prognóstico. Em seguida um funcionário do serviço financeiro foi até o quarto para realizar a cobrança dos serviços do anestesista. Minha irmã realizou o pagamento e logo em seguida solicitou o reembolso ao convênio, que o fez cerca de dez dias após a cirurgia.

Final feliz.

A questão é que ela estava sozinha, em uma situação de estresse onde o profissional que devia orienta-la sobre o procedimento e esclarecer suas dúvidas, a induziu friamente a acreditar que a única opção da cirurgia ocorrer era contratando os serviços do Anestesista particular. Como não era um procedimento de emergência  o ideal seria  que o anestesista fizesse uma visita ao paciente um pouco antes do procedimento cirúrgico, para levantar seu histórico de saúde, realizar exame físico, explicar qual tipo de anestesia seria utilizada, assim como o cirurgião deveria também ter realizado uma visita explicando o tipo de intervenção, tempo estimado de cirurgia, como provavelmente seria recuperação pós cirúrgica. Como já citei seria o ideal, não havendo tempo hábil para ambas visitas, pois sabemos que a rotina de plantonistas é extremamente atribulada e com escassez de tempo, pelo menos um dos dois profissionais deveriam ter realizado uma visita ao paciente.

Photo by pexels.com

No site do hospital em questão é informado que existem plantonistas de diversas áreas, inclusive nas emergências traumatológicas, com prestação completa de assistência até mesmo cirúrgica se necessária. O que me leva a crer que há anestesistas plantonistas para acompanharem estes cirurgiões. O que não foi comentado, por nenhum profissional, se realmente o cirurgião em questão somente operava acompanhado deste anestesista e por que essa informação só foi dada quando o paciente já estava na sala do pré-operatório?  Eu me pergunto qual seria a conduta caso minha irmã recusa-se a contratar este profissional por não concordar ou simplesmente não ter recursos financeiros?

Infelizmente ainda temos a cultura de não questionarmos os profissionais médicos. Conforme a resolução normativa  387 da Agência Nacional de Saúde,  vigente em 2017: os procedimentos que necessitam de anestesia, com ou sem a participação de profissional médico anestesista, terão sua cobertura assistencial obrigatória, caso haja indicação clínica, respeitando-se os critérios de credenciamento, referenciamento, reembolso ou qualquer tipo de relação entre a operadora de planos privados de assistência à saúde e prestadores de serviços de saúde. O procedimento em questão era fratura e ou luxações (tratamento cirúrgico) de membros superiores

Podemos dizer que o anestesista agiu de acordo com a norma regulamentadora, pois o serviço foi prestado mediante reembolso. Mas com certeza isso não diminui o sentimento de frustação.

Espero que com esse relato possamos refletir sobre nossos direitos e a necessidade de questionar em caso de dúvidas. Prefiro acreditar que este foi um mal exemplo de ética profissional e que seja raro entre tantos profissionais dedicados à sua profissão e bem-estar de seus pacientes.

Enfermeira por vocação, auditora por opção. Mãe por loucura. Fã de romances de época.