Uma verdade inconveniente ou porquê você, classe média, deveria largar seu carro

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O automóvel é um símbolo muito poderoso. Foi por muito tempo sinônimo de modernidade e até hoje carrega a estigma de dinheiro, do status de seu dono. Culturalmente essa é uma situação consolidada e difícil de se reverter. Soma-se isso com o tipo de gestor público que temos e estamos prontos para décadas de políticas públicas que privilegiam o transporte individual motorizado. Da expansão da largura de ruas e rodovias, à falta de manutenção das calçadas e ao sucateamento do transporte coletivo: todos sinais da falta de interesse do Público para a regalia de poucos. Ou não seriam tão poucos assim?

O período de crescimento econômico recente do país deu acesso ao carro a muitas famílias que antes não possuíam um automóvel. É incompatível que um Estado consiga fomentar políticas públicas baseadas no automóvel sem prejudicar o transporte coletivo e o transporte não-motorizado (pedestres e ciclistas). As cidades não comportam espacialmente essa dicotomia e quando se escolhe um lado, automaticamente o outro é sucateado, nesse caso gerando cidades com péssimas calçadas, ruas escuras e um sistema de transporte coletivo ineficaz, tanto para os usuários quanto para as empresas que o operam. Por isso, o transporte coletivo, na maioria das cidades do Brasil, é tão ruim que dá origem a um fenômeno paradoxal.

Boa parte dos usuários de transporte público são ditos “cativos”. São pessoas que por questões financeiras não conseguem se deslocar de outra forma, estão presas ao sistema ruim e usualmente depende ainda mais deste por morarem longe dos centros financeiros e econômicos das cidades, onde estão os empregos. Em contrapartida, os usuários que possuem condições de pagar um preço maior pela terra moram mais perto dos centros financeiros e por isso tem mais oferta de transporte coletivo. Entenda que maior oferta não significa necessariamente qualidade. A frequência ainda é baixa perto do que se precisaria, o desconforto é grande e os horários pouco confiáveis. Assim sendo, a baixa qualidade do transporte é o que acaba por perder os usuários que escolheriam se deslocar dessa maneira.

Quais as consequências disso? Os usuários que usam o transporte coletivo atualmente não têm volume numérico o suficiente para fazer pressão, mas mais do que isso, não tem poder político suficiente para tal. É notável na história do país como são as classes mais abastadas têm mais voz e suas demandas atendidas pelo poder público com mais eficácia. Vendo pelo outro lado, cada pessoa andando de carro é sinônimo de um trecho a mais de congestionamento nas cidades, poluição, barulho e uma população cada vez com menos qualidade de vida.

Para se alcançar o famoso ‘padrão europeu’ de transporte coletivo, que as classes médias e altas tanto valorizam, é necessário que haja menos carros nas ruas. Para isso acontecer o usuário precisa fazer uma escolha de não usar o próprio carro. E a verdade é que mesmo que o sistema de transporte coletivo seja ótimo, ele ainda é coletivo, ou seja, nunca terá a vantagem do carro de sair e voltar na exata hora que se quer.

Que fique claro que a ideia não é simplesmente abandonar o carro e passar desconforto dentro de um ônibus, é muito mais que isso. Uma sociedade justa, igualitária e segura passa por igualdade de oportunidades e uma população diversa convivendo sem conflitos. O uso do transporte coletivo é só um ponto dessa sociedade que infelizmente só é desejada da boca pra fora por boa parte da população, quando esta percebe que vai perder seus privilégios, a coletividade desaparece.

No fim das contas, a melhora do transporte público deve ser um trabalho em conjunto do Estado, que precisa urgentemente melhorar a qualidade do transporte coletivo, e do usuário, principalmente o usuário que se deslocava de carro em usar e cobrar qualidade do sistema. O fato é que ficar sentado no seu próprio carro num congestionamento reclamando para si mesmo não vai fazer que magicamente metrôs sejam construídos e linhas de ônibus passem com mais frequência perto da sua casa.

A bruxa da minha própria história, urbanista e arquiteta. Só não escrevo de todo o coração porque ele ficou em Budapeste.