O espaço da mulher dentro da cidade

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A diferença entre experiências de mulheres e homens no espaço público é clara para qualquer pessoa minimamente observadora, mesmo que esta não consiga compreender suas causas. A preparação, o cuidado e a atenção das mulheres antes de adentrar o espaço público, na escolha de roupas, de horários e de trajetos é muito mais complexa que a de um homem. O mesmo vale para o período em que efetivamente se está no espaço público. Andamos atentas, rígidas, com medo. Falta de iluminação pública e caminhos desertos são fatores essenciais na escolha do trajeto de uma mulher e na maneira que ela vai se deslocar por esse trajeto.

Contudo, a diferença de percepção e tratamento no espaço público entre gêneros vai muito além da questão da segurança. Na verdade, a questão da segurança é só um sintoma de valores intrínsecos a nossa sociedade.

Poucas décadas atrás existia uma clara dicotomia social e funcional nos papéis de gênero: mulheres se reservavam à esfera privada, exercendo seus papéis de donas de casa e mães. Homens viviam na rua, na esfera pública, socializando com outros homens.

A dominação intelectual masculina foi tamanha por tanto tempo que se tem a perspectiva de que o que é masculino é universal, negando as experiências e necessidades femininas nas mais diversas áreas. Assim, as cidades vêm sendo projetadas majoritariamente por homens, há séculos, como se existe uma neutralidade e universalidade no discurso projetual dos técnicos e dos gestores.

A verdade é que esses discursos e projetos atendem à necessidade desse grupo em específico, homens de média idade para cima, que estejam bem de saúde, tenham trabalhos estáveis, ganhem bem, se desloquem de carro e tenham esposas. Nesse caso a voz dos grupos oprimidos é facilmente calada.

O papel de gênero dentro de uma sociedade influencia em como o indivíduo se comporta perante a mesma, principalmente no espaço público e social, quando sua liberdade de expressão pode ser tolhida ao que se espera dele. O homem tem liberdades dentro do território que a mulher não tem, e isso é muito claro no espaço público.

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A conquista parcial da mulher no mercado de trabalho é recente, em todas as áreas e sua representação no corpo técnico e político ainda pequena. Essa conquista, num primeiro momento, resultou numa dupla jornada de trabalho. A responsabilidade de sustentar financeiramente o lar foi dividida, a responsabilidade sobre as tarefas domésticas não, e isso acarreta numa divergência no modo de uso do espaço da cidade e nos deslocamentos.

Como ainda é responsabilidade (da maioria) das mulheres as tarefas de levar as crianças na escola, cozinhar, limpar, cuidar de idosos e outras tarefas do dia-a-dia, muitas mulheres se deslocam pela cidade em polígonos, atendendo a seus diversos pontos de necessidade (casa-escola-trabalho-mercado-casa, ou qualquer outra combinação possível). O homem, trabalhando em seu emprego formal, ou não, tem um deslocamento linear e simples: casa-trabalho-casa. A faixa de renda, a situação de moradia, e principalmente se a mulher é mãe, são fatores que muito podem dificultar o deslocamento feminino pela cidade.

Sabendo-se dessa diferença de circuitos e de quem projeta a cidade e faz as políticas públicas é fácil entender porque o transporte coletivo é feito para levar os habitantes da cidade de sua casa para o local de trabalho e/ou estudo e vice-versa. Os fatores que levam a essa conclusão é a diferença de frequência das linhas nos horários de pico e vale dos transportes, que têm maior frequência em horário comercial, nas trajetórias das linhas que em sua maioria ligam os bairros dormitórios aos centros econômicos e financeiros das cidades onde estão os empregos. Em algumas cidades, como Florianópolis, linhas inteiras de ônibus não tem horários sábados à tarde e aos domingos, explicitando a teoria anterior.

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Outras dificuldades na questão da mulher dentro da cidade têm relação com mobilidade não-motorizada, incluindo desde mães andando com carrinhos de bebês e mulheres levando cadeirantes até a largura das calçadas e a qualidade de manutenção dessas para o uso de pedestres portando compras e qualquer outro produto possível.

Para encerrar o texto, voltemos ao quesito da segurança. Ruas espaçosas, bem iluminadas e com um fluxo constante de pessoas em diversas horas do dia são fatores essenciais para garantir a segurança de um grupo que sofre assédio físico e moral diariamente no espaço público.

Dito tudo isso é importante não se iludir que um planejamento urbano bem-feito possa resolver todos os problemas sociais relativos a gênero sozinho, mas ele pode ser uma boa base de início se a cidade fosse feita por todos e para todos.

A bruxa da minha própria história, urbanista e arquiteta. Só não escrevo de todo o coração porque ele ficou em Budapeste.